Agostinho: O teólogo da Graça

Agostinho: Teólogo da Graça1

Homens não são salvos por boas obras nem pela livre determinação da vontade deles, mas pela graça de Deus através da fé.

Mas essa parte da raça humana que Deus prometeu perdão e um lugar no Seu eterno reino, podem eles ser restaurados através do mérito de suas próprias obras? Deus nos livre. Por quais boas obras pode um homem perdido realizar, exceto que até agora ele tem sido entregue à perdição? Podem eles fazer alguma coisa pela livre determinação da própria vontade deles? Novamente eu digo: Deus nos livre. Pois foi pelo mau uso de sua livre vontade que o homem destruiu a ambos, ela e ele mesmo. Pois, como um homem que mata a si mesmo deve, obviamente, estar vivo quando se mata, mas depois de ter se matado cessa de viver e não pode restaurar a si mesmo; assim também, quando o homem por sua própria livre vontade pecou e o pecado foi vitorioso sobre ele, sua liberdade foi perdida. “Porque de quem alguém é vencido, do tal faz-se também servo.” (2 Pe 2:19). Esse é o julgamento do Apóstolo Pedro. E como é certamente verdade, que tipo de liberdade, pergunto, pode o escravo possuir, exceto quando lhe agrada pecar? Pois está livremente em servidão quem faz com prazer a vontade de seu mestre; consequentemente, ele que é o servente do pecado é livre para pecar e, assim, ele não vai ser livre para fazer o que é justo até que sendo liberto do pecado, ele comece a ser servo da justiça e isso é liberdade verdadeira, pois ele tem prazer nos atos de justiça que é ao mesmo tempo uma santa servidão, pois ele é obediente à vontade de Deus. Mas de onde vem essa liberdade para fazer o bem para o homem que está em servidão e vendido ao pecado, exceto que ele seja redimido por Aquele que disse: “Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres”? (Jo 8.36). E antes dessa redenção ser forjada no homem, quando ele ainda não é livre pra fazer o que é certo, como ele pode falar de liberdade de sua vontade e de suas boas obras, a não ser que ele seja inflado pelo orgulho tolo de se vangloriar, do qual o apóstolo coíbe quando diz “Pela graça sois salvos através da fé” (Ef 2.8)?

A fé em si é dom de Deus e as boas obras não irão faltar naqueles que acreditam.

E para que o homem não se arrogue para si mesmo o mérito de sua própria fé, ao menos, não entendendo que isso também é dom de Deus, o mesmo apóstolo que disse em outro lugar que ele “obteve misericórdia do senhor para ser fiel” (1 Cor 7:25) aqui também ele acrescenta: “e isto não vem de vocês, é dom de Deus. Não vem das obras para que ninguém se glorie” (Ef 2:8). E para que não se pense que faltarão boas obras naqueles que creem, ele complementa: “Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas”. (Ef 2:10).Nós seremos feitos verdadeiramente livres quando Deus nos moldar, ou seja, formar-nos e criar-nos outra vez, não como homens – pois ele já nos tem feito assim – mas como bons homens, nos quais Sua graça está agora operando. Que nós possamos ser uma nova criação em Cristo Jesus, como é dito: “Cria em mim, oh Deus, um coração puro” (Salmos 51:10), porque Deus já tinha criado seu coração, no que se refere a estrutura física do coração humano, mas o salmista ora pelo renovo da vida que ainda permanecia em seu coração.

A liberdade da vontade é também dom de Deus, pois Deus trabalhou em nós tanto o querer quanto o realizar.

Além disso, poderia alguém ser inclinado a gloriar-se, não de fato por suas obras, mas pela liberdade de sua vontade, como se o primeiro mérito pertencesse a ele, essa grande liberdade de boa ação sendo dada para ele como um prêmio que ele ganhou. Deixe-o escutar o mesmo pregador da graça, quando diz: “Porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade.” (Fp 2:13), e em outra ocasião: “Assim, pois, isto não depende de quem quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece.” (Rm 9:16). Agora, se um homem tem idade para usar sua razão, ele não pode acreditar, esperar e amar a menos que ele deseje fazer isso, nem obter o prêmio da soberana vocação de Deus a menos que ele voluntariamente corra por isso; em que sentido é “Isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece”, exceto que, como está escrito “A preparação do coração vem do Senhor”? (Prov 16:1). Caso contrário, se é dito: “isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece” porque é de ambos, ou seja, [ambos da vontade do homem e da misericórdia de Deus]a, então nós vamos entender o dito “Isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece” como se significasse que a vontade do homem sozinha não é suficiente, se a vontade de Deus não for com ela – então segue que só a misericórdia de Deus não é suficiente, se a vontade do homem não for com ela; portanto, se nós pudermos dizer corretamente “Não é do homem que deseja, mas de Deus que mostra misericórdia” porque a vontade do homem em si não é suficiente, por que não poderíamos também dizer o contrário: “Não é de Deus que mostra misericórdia, mas do homem que quis”, porque a misericórdia de Deus em si não é suficiente? Certamente, se nenhum cristão vai ousar dizer isso “Não é de Deus que mostra misericórdia, mas do homem que quis” para abertamente não contradizer o apóstolo, segue que a verdadeira interpretação do dito “Isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece” é que o trabalho inteiro pertence a Deus que faz a vontade do homem justificada e, por isso, a prepara para obter ajuda e a ajuda quando está preparada. Porque a justiça da vontade do homem precede muitos dons de Deus, mas não todos; e ela mesma deve ser incluída entre os que ela não precede. Nós lemos na Santa Escritura, ambos, a misericórdia de Deus “me alcançará” (Sl 59:10) e que Sua misericórdia “me seguirá” (Sl 23:6). Ela vem antes da disposição para fazê-lo [o salmista] disposto e acompanha a disposição para fazer sua vontade efetiva. E por que nós somos ensinados a orar por nossos inimigos (Mt 5:44) que são claramente indispostos a levar uma vida santa, a menos que Deus possa operar boa vontade neles? E por que nós somos ensinados a pedir para que possamos receber (Mt 7:7), a menos que Ele que tem criado em nós o desejo possa Ele mesmo satisfazê-lo? Nós oramos, então, por nossos inimigos para que a misericórdia de Deus possa preveni-los como nos tem prevenido e oramos por nós mesmos para que Sua misericórdia possa nos acompanhar.

Homens, sendo por natureza filhos da ira, necessitavam de um mediador. Em que sentido é dito estar Deus irado.

E assim a raça humana se encontrava sob uma condenação e todo homem era filho da ira, da qual está escrito: “Pois todos os nossos dias vão passando na tua indignação; passamos os nossos anos como um conto que se conta” (Sl 90:9). Ira da qual Jó também diz: “O homem, nascido da mulher, é de poucos dias e farto de inquietação” (Jó 14:1). Ira da qual o Senhor Jesus também diz: “Aquele que crê no Filho tem a vida eterna; mas aquele que não crê no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus sobre ele permanece2” (Jo 3:36). Ele não diz que virá, mas que permanece sobre ele. Porque todo homem nasce com ela. Por isso o apóstolo diz: “Éramos por natureza filhos da ira, como os outros também” (Ef 2:3). Agora, como homens sob essa ira pelo motivo do pecado original feito mais pesado e mortal na proporção ao número e magnitude dos atuais pecados que foram adicionados a ele, havia a necessidade de um Mediador, ou seja, um reconciliador, que pela oferta de um sacrifício, do qual todos os sacrifícios da lei e dos profetas eram tipos, tiraria essa ira. Por isso o apóstolo diz: “Porque se nós, sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, muito mais, tendo sido já reconciliados, seremos salvos pela sua vida” (Rm 5:10). Agora quando Deus é dito estar irado, nós não atribuímos a Ele sentimentos perturbadores como existe na mente de um homem irado, mas chamamos Seu justo descontentamento contra o pecado de ira, uma palavra transferida por analogia das emoções humanas. Entretanto, nosso ser reconciliado para Deus através de um Mediador e recebendo o Espírito Santo, de modo que nós que éramos inimigos somos feitos filhos [“Porque todos os que são guiados pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus” (Rm 8:14)]:Essa é a graça de Deus através de Jesus Cristo nosso Senhor.

[a] Nota do tradutor: Faltava essa parte no artigo que se traduziu. O complemento foi encontrado em: http://christianbookshelf.org/augustine/the_enchiridion/chapter_32_the_freedom_of_the.htm

[1] Os escritos de Agostinho de Hipona foram uma fonte para que os Reformadores, particularmente João Calvino, recorressem com empenho para mostrar que a visão deles sobre divina graça não era novo, mas estava em linha com o Cristianismo histórico. Agostinho era um volumoso e difícil escritor, e a parte de sua Confissões e partes de Cidade de Deus, ele é desconhecido para muitos cristãos hoje. Porém, Enchiridion de Agostinho escrito em resposta as questões enviadas por Laurentius, algum tempo depois de 420 d.C, dá uma sucinta declaração da teologia de Agostinho. Embora prejudicado por uma ênfase acética e sacramentalista, ainda pode ser lido com proveito, como esse deleitoso excerto mostra. Para um tratamento autoritativo de Agostinho de um ponto de vista reformado clássico veja Warfield’s Calvin and Augustine.

[2] Essas palavras, atribuídas pelo autor a Cristo, foram na verdade proferidas por João Batista.

By Iain H. Murray. Translated with permission. © 2003 Banner of Truth. All rights reserved. Website: www.banneroftruth.co.uk. Original: Augustine: Theologian Of Grace.

Traduzido com permissão por Diego Pereira de Andrade. afeicoesdoevangelho.wordpress.com. Colaboração de Kymberly Tolson. Original: Agostinho: O teólogo da Graça.

O leitor tem permissão para reproduzir esse conteúdo desde que não o altere, informe os créditos de autoria e tradução, e não use para fins comerciais.

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