Santificação por Thomas Watson

“Pois essa é a vontade de Deus, que vocês sejam santificados.”  (I Ts 4:3)

(…)

Quais são as imitações da santificação?

Há coisas que se parecem com a santificação, mas não são.

(1.) A primeira imitação da santificação é a virtude moral. Ser justo, ser temperante, ter bom comportamento, não manchar a reputação alheia com escândalos vergonhosos é bom, mas não o suficiente; isso não é santificação. Um campo de flores difere de um jardim de flores. Pagãos alcançaram a moralidade, como Cato, Sócrates e Aristides. Civilidade é apenas natureza refinada, não há nada de Cristo nela. O coração pode ser encontrado sujo e impuro. Nestas justas folhas da civilidade, a larva da incredulidade pode estar escondida. Um moralista tem uma antipatia secreta contra a graça. Ele odeia o vício, e odeia graça tanto quanto o vício. A serpente tem uma bela cor, mas também sabe picar. Uma pessoa adornada e cultivada com a virtude moral, tem uma secreta má disposição contra a santidade. Os estóicos, cabeça dos pagãos moralizados, eram inimigos ferrenhos de Paulo (Atos 17.18).

(2.) A segunda imitação da santificação é a devoção supersticiosa. Esta abunda no papismo. Adorações, imagens, altares, vestimentas e água benta, os quais eu vejo como um frenesi religioso, longe da santificação. Não põe qualquer bondade no íntimo do homem, não o faz melhor. Se as purificações e limpezas legais, as quais foram designadas pelo próprio Deus, não tornaram mais santos aqueles que as faziam, e os sacerdotes, que usavam vestes sagradas e tiveram santo óleo derramado sobre eles, não eram mais santos sem a unção do Espírito, então certamente essas inovações supersticiosas na religião, que Deus nunca designou, não podem contribuir com qualquer santidade aos homens. A santidade supersticiosa não demanda muito esforço, não há nada do coração nela. Se rezar o terço, prostrar-se perante uma imagem, aspergir-se com água benta e tudo o que é requerido deles para ser salvo, fossem santificação, então o inferno estaria vazio, ninguém iria para lá.

(3.) A terceira imitação é a hipocrisia, quando os homens fingem ter uma santidade que eles não têm. Como um cometa pode brilhar como uma estrela, como um lustre pode brilhar ao ser usado, deslumbrando os olhos dos espectadores. “Tendo aparência de piedade, mas negando-lhe sua eficácia” (II Tm 3.5). Estes são lâmpadas sem óleo, sepulcros caiados, como os templos egípcios que tinham razoável exterior, mas por dentro tinham aranhas e macacos. O apóstolo fala da verdadeira santidade (Ef. 4.24), o que implica que há santidade que é falsa e fingida. “Tens nome de que vives, mas estás morto” (Ap. 3.1). Como fotos e estátuas que são destituídos de um princípio vital. “Nuvens sem água” (Jd. 12). Eles fingem ser cheios do Espírito, mas são nuvens vazias. Este show da santificação é uma auto ilusão. Aquele que leva cobre em vez de ouro engana a si mesmo. O mais hipócrita santo engana os demais enquanto vive, mas engana a si mesmo quando morre. Aparentar santidade quando ela não existe é uma coisa vã. Quanto foram melhores as virgens loucas para com as suas lâmpadas ardentes, quando buscaram o azeite? O que é a lâmpada da profissão de fé sem o azeite da graça salvadora? Que consolo uma demonstração de santidade produzirá afinal? Ouro pintado enriquece? Copos pintados de vinho refrescam aquele que está sedento? Ou a santidade figurada será sincera na hora da morte? Fingir santificação não é um porto seguro. Muitos navios chamados de “Esperança”, “Protetor” e “Triunfo”, tem permanecido, bem longe, sobre rochas, assim como muitos que tiveram nome de santos estão no inferno.

(4.) A quarta imitação da santificação é a graça restringente, quando o homem deixa o vício apesar de não odiá-lo. Este pode ser o lema do pecador: “Feliz eu iria, mas não me atrevo”. Um cão só pensa em osso, mas ele tem medo do bastão. Assim os homens tem a mente na luxúria, mas a consciência se coloca como um anjo com uma espada flamejante, e os aterroriza. Eles estão prontos para a vingança, mas o medo do inferno é uma rédea para aferi-los. Não há mudança de coração. O pecado está sob controle, mas está não tratado. Um leão pode estar acorrentado, mas ainda é um leão.

(5.) A quinta imitação da santificação é a graça comum, que é um pequeno e temporário atuar do Espírito, não equivalendo à conversão. Existe alguma luz no discernimento, mas não é capaz de quebrantar. Há um pouco de bravura na consciência, mas ela não a desperta. Isto parece santificação, mas não é. Os homens têm convicções forjadas neles, mas se libertam delas novamente, como o cervo que ao ser flechado sacode a flecha. Depois de serem confrontados, eles vão para a casa da alegria e risos, levam a harpa para afastar o espírito da tristeza, e assim tudo morre e não se chega a nada.

O que é santificação?

É um princípio da graça salvadora, através da qual o coração se torna santo, e é feito segundo o próprio coração de Deus. Uma pessoa santificada carrega não somente o nome de Deus, mas também a Sua imagem. Dando início à natureza da santificação, eu afirmarei estes sete pontos:

(1.) A santificação é algo sobrenatural, é divinamente infundido. Naturalmente, nós  estamos contaminados, e para purificar, Deus considera a Sua prerrogativa: “Eu sou o Senhor que vos santifica” (Lv. 21.8). Sementes crescem por si mesmas. Flores se plantam. A santificação é uma flor cultivada pelo Espírito. Por isso é chamada de “santificação do Espírito” (I Pe 1.2).

(2.) Santificação é algo intrínseco, que reside principalmente no coração. Ela é chamada de “adorno”, “o homem interior do coração” (I Pe. 3.4). O orvalho molha a folha; a seiva se esconde na raiz! Assim, a religião de alguns consiste apenas em aparências, mas santificação está profundamente enraizado na alma. “E no oculto me fazes conhecer a sabedoria” (Salmos 51.6b)’.

(3.) A santificação é extensa, ela se difunde por todo o homem. “Que o próprio Deus da paz os santifique inteiramente” (1 Te 5.23). Uma vez que a pecado original depravou todas as faculdades (“Toda a cabeça está doente, todo o coração fraqueja, sem bater”, como se toda a massa do sangue estivesse corrompida), assim a santificação engloba toda a alma. Após a queda, houve ignorância na mente. Porem, com a santificação, somos “luz no Senhor” (Ef. 5.8). Após a queda, o arbítrio foi corrompido. Não havia apenas a impotência para fazer o bem, mas também a obstinação. Na santificação, há uma bendita sujeição da vontade.  Ela tipifica a vontade de Deus e comporta-se segundo ela. Após a queda, os afetos foram depositados em alvos errados. Com a santificação, eles são levados a uma doce e harmoniosa forma. O pesar colocado sobre o pecado, o amor dirigido a Deus e a alegria depositada no céu. Desse modo, a santificação se estende tanto quanto a corrupção original, abrangendo toda a alma. “O Deus de paz vos santifique em tudo”. Ele não é santo de uma forma tal que só é bom parcialmente, mas que o é completamente. Por isso, nas Escrituras, a graça é chamada de “novo homem”, não “um novo olhar” ou “uma nova língua”, mas um “novo homem” (Cl. 3.10). Um bom cristão, ainda que santificado em partes, o é por completo.

(4.) A santificação é intensa e ardente! Qualitates suint em subjecto intensivo (Suas características queimam dentro do crente). “Fervorosos no espírito” (Ro. 12.11). A santificação não é uma forma morta, mas é inflamada até o fervor. Dizemos que a água está quente quando ela está alguns graus elevada. Desse modo, é santo aquele cuja religião é aquecida a alguns graus e cujo coração ferve no amor a Deus!

(5). Santificação é uma bela coisa. Ela faz Deus e os anjos se “apaixonarem” por nós. “Os ornamentos da santidade” (Sl 110.3). Assim como o sol é para o mundo, a santificação é para a alma, embelezando-a e adornando-a aos olhos de Deus. Aquilo que glorifica Deus deve necessariamente fazer-nos assim. Santidade é a joia mais brilhante da Trindade. “Majestoso em santidade” (Ex. 15.11). A santificação é o primeiro fruto do Espírito; é o despertar do céu na alma. Santificação e glória diferem apenas em um ponto: a santificação é a glória como uma semente, e glória é a santificação como uma flor. A santidade é a essência da felicidade.

(6). A santificação é permanente. “Sua (Deus) semente permanece nele” (I Jo 3.9). Aquele que é verdadeiramente santificado, não pode decair desse estado. De fato, a santidade aparente pode ser perdida; cores podem ser removidas. A santificação pode sofrer um eclipse. “Tu deixaste o teu primeiro amor” (Ap. 4.2). A verdadeira santificação é uma flor da eternidade. “A unção que vós recebestes permanece em vós” (I Jo 2.27). Quem é verdadeiramente santificado não pode cair mais que os anjos que estão fixos em suas órbitas celestes.

(7). A santificação é progressiva. Ela sempre cresce, como uma semente que germina. Primeiro, as folhas brotam, depois a espiga, e então o grão maduro na espiga. Assim também, os já santificados podem ser mais santificados (II Co. 7.1). A justificação não admite graus, um crente não pode ser mais eleito ou justificado do que ele é, mas pode ser mais santificado. A santificação ainda está progredindo, assim como o Sol da manhã, que torna-se mais brilhante até o completo meridiano. O conhecimento e a fé devem crescer (Cl 1.10, II Co 10.15). Um cristão está continuamente acrescentando um côvado à sua estatura espiritual. Conosco não acontece como foi com Cristo que recebeu o Espírito sem medida. Cristo não poderia ser mais santo do que ele. Nós temos o Espírito apenas em parte podendo aumentar a graça em nós, como Apeles que, ao ter pintado um quadro, ainda o retocaria com seu pincel. A imagem de Deus está desenhada em nós, mas de modo imperfeito. Por isso, ainda devemos retocá-la, pintando-a com cores mais vivas. A santificação é progressiva e, se ela não cresce, é porque ela não vive. Assim, você vê a natureza da santificação.

Thomas Watson (1620 – 1686). Sanctification.

Traduzido por Edmilton Filho. afeicoesdoevangelho.wordpress.com.

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O afeições do evangelho foi criado com o propósito de incentivar as pessoas a buscarem conhecer e viver o Evangelho Cristocêntrico, como fizeram uma grande nuvem de testemunhas (Hebreus 12.1) em outras gerações. Solus Christus!
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