O Legado Puritano por Augustus Nicodemus

Vamos tentar fazer um sumário : O puritano cria que estava na presença de Deus e fazendo a obra de Deus em qualquer lugar que ele fosse, e não somente na Igreja. Ele sentia que era o seu chamado transformar cada área da vida em algo santo para Deus. Vamos ver algumas áreas que os Puritanos desejavam purificar no mundo. É nesse aspecto que eles deixaram um legado extraordinário para os dias de hoje.

Em primeiro lugar, eles queriam a Reforma total da Igreja segundo as Escrituras. Eles acreditavam que a melhor forma de se obter isso era através da pregação expositiva de todo conselho de Deus. Acreditavam que, se a pregação viesse através da exposição dos livros da Bíblia, uma reforma sobrenatural aconteceria como resultado. Para tal, era necessário que todas as partes da Bíblia fossem entendidas, para se dar um caráter equilibrado à reforma. Acreditavam na necessidade de pregar de forma direta ao coração . Na realidade, a pregação p uritana é mais conhecida como pregação direta. Desejavam falar às pessoas simples, de forma direta e não rebuscada, e que fosse compreendida. Esse conceito era muito diferente do que era praticado na Igreja Anglicana daquela época. A pregação Anglicana daquele tempo era muito florida, rebuscada, com citações em grego, hebraico e latim. Muitos dos pregadores na Igreja Anglicana pregavam apenas com o propósito de impressionar os professores das universidades que estavam presentes. Os Puritanos entendiam que este tipo de pregação era uma glorificação do pregador ou demonstração de erudição, muito mais do que a declaração do conselho de Deus. O propósito da pregação não era o de glorificar o pregador e toda a sua erudição. O propósito do pregador era o de se esconder atrás do texto o máximo que pudesse para que o Senhor fosse exaltado em toda a Sua glória e beleza. Assim, os Puritanos prega vam de forma simples e direta em muitos assuntos, e colocavam grande ênfase na aplicação da Palavra .

Geralmente passavam meia hora expondo o que havia no texto, e mais meia hora na aplicação desse texto. Eles diziam o que o texto falava aos diversos tipos de pessoas presentes na congregação. Diziam o que a Palavra tinha a ensinar às pessoas que já eram salvas, aos perdidos e àqueles que estavam em busca da salvação; mostravam o que o texto falava aos pais, às crianças e até ao Rei e ao governo. Por isso, alguns deles foram lançados na prisão e tiveram suas orelhas cortadas. Apesar disso, continuavam pregando da mesma forma, e a Palavra era aplicada poderosamente. Eventualmente, muitas Igrejas fecharam suas portas para esta pregação puritana. Foi q uando um número grande de homens de negócios bem sucedidos, em Londres, começaram a fazer depósitos bancários para investir e a usar os juros daquela aplicação para sustentar centenas de pregadores Puritanos que se espalhavam pela Inglaterra pregando a Palavra. Estes homens estavam convictos de que a Inglaterra e Escócia haveria de florescer pela pregação da Palavra, e literalmente pagavam para isso. Quando um pregador Puritano não conseguia pregar nas Igrejas, ele ia para a feira, e lá pregava a dezenas e centenas de pessoas que vinham para as compras. Geralmente os simpatizantes dos Puritanos que eram proprietários de negócios, e que tinham instalações amplas, cediam-nas para que os Puritanos pregassem. Dessa forma, milhares de pessoas eram atingidas pela Palavra. Eles literalmente tomaram o mapa da Inglaterra e procuraram garantir que cada parte do país tivesse pelo menos um pr egador Puritano, para que a obra reformadora de Deus fosse acessível a cada parte da nação. Dessa forma, a influência do puritanismo cresceu ao ponto de tomar o Parlamento. Esta é a primeira coisa que podemos aprender com eles: buscar a purificação da Igreja e da sociedade pela pregação da Palavra.

Em segundo lugar, vamos falar sobre a vida de piedade dos Puritanos. Já falamos sobre a reforma da Igreja, e agora falaremos sobre a reforma do coração. Os Puritanos estavam em conflito para manter juntas duas coisas: de um lado, um coração que ardia em amor a Deus e ao próximo; e de outro, um intelecto preparado, pois entendiam que se a mente fosse bem educada e preparada e se o coração fosse cheio de fervor e amor a Deus, as pessoas seriam transformadas à imagem de Cristo e seriam capazes de mudar a comunidade em que viviam. A expressão que os Puritanos sempre usavam para isso era “autocontrole”. Em termos modernos, usando uma expressão teo lógica contemporânea, diríamos “cheio do Espírito Santo”. Uma das maneiras pelas quais os Puritanos buscavam o “autocontrole,” ou o andar “cheio do Espírito Santo”, mantendo o coração e a mente aquecidos, era através da meditação contínua na Palavra de Deus. A espiritualidade puritana nunca foi dissociada da Palavra de Deus escrita, e isso é muito importante e deve ser lembrado hoje.

A única espiritualidade que realmente vem de Deus é a que é consoante ao ensino da Palavra. Um dito puritano afirmava: “Pregações são como a comida na mesa; você deve comer, mastigar bem; um sermão bem digerido e sobre o qual você meditou bem é melhor do que vinte sermões sobre os quais você não meditou”. Os Puritanos faziam comparação com uma vaca ruminando. Entendemos que uma das razões da nossa superficialidade, como evangélicos, é que não queremos tirar tempo para meditar na Palavra de Deus. Os Puritanos eram pessoas tão ocupadas quanto nós hoje, mas tinham essa prioridade diária de meditar na Palavra, na verdade. Eles voltavam para casa depois do culto para discutir e conversar a respeito do sermão com seus filhos.

Em terceiro lugar, isso nos leva a um outro aspecto importante do legado Puritano. Não somente eles estavam controlando a vida da Igreja e a vida pessoal através da Escritura, mas também a vida doméstica. Há cerca de um século, o famoso historiador Inglês J. Richard Greenhan disse:

O lar, como nós hoje o conhecemos, foi criado pelos Puritanos. A esposa e os filhos emergiram de uma simples dependência do pai, à medida em que os pais e maridos percebiam nas suas esposas e filhos santos exatamente como eles, almas que haviam sido santificadas pelo toque do Espírito Santo e que haviam sido chamadas com a mesma vocação divina com a qual eles haviam sido chamados. Essa sensação de comunhão dentro da família trouxe uma nova ternura e um refinamento aos sentimentos, às afeições do lar .

Em quarto lugar, ao invés da assistência diária à missa, como na Igreja Católica, os Puritanos instituíram o culto doméstico diário. Isso foi um passo sociológico muito importante. O Prof. Hill o considera como a “espiritualização da família”. À medida que a família e a casa eram vistas por esta perspectiva, se tornavam então, como um outro centro de governo. E à medida que o lar era visto como tendo esta independência, funcionava como oposição, com o objetivo de equilibrar aquele governo autoritário que havia. O lar Puritano, então, era um lugar onde Deus era encontrado em amor, onde os membros da família eram respeitados como santos, e onde a Palavra de Deus era continuamente ouvida e difun dida.

É uma grande falsidade que se levanta contra os Puritanos dizer que eram opostos a qualquer tipo de sexualidade. Se você se dedicar a ler sobre os Puritanos, vai ver que não é assim. Eles se baseavam no Velho Testamento e nas epístolas para se deleitarem no dom da sexualidade dado por Deus. É verdade que os vitorianos do século XIX, na Inglaterra, tinham uma certa antipatia por este assunto. Mas, na realidade, esse pessoal da era vitoriana pode ser considerado mais como humanistas do que propriamente como Puritanos.

Este princípio regulador é relacionado com a área da educação. Os Puritanos freqüentemente mencionavam um dito rabínico: “Se um pai não ensina ao seu filho a Lei de Deus, e se não o treina numa profissão decente, está criando-o para ser um ladrão”. Na Nova Inglaterra, nos E.E.U.U., no início da década de 1630 e 1640, algumas leis foram estabelecidas determinando que todo pai deveria assegurar a educação de seus filhos. A lei era esta: “As pessoas devem ser instruídas em alguma vocação que seja legal e útil, quer seja para o trabalho manual, ou outro tipo de emprego, quer arando na fazenda, ou algum outro tipo de profissão que seja proveitosa para si mesmo e para o bem comum.”

Nesse contexto, deveríamos observar a importância da vida puritana-familiar com sua instrução acadêmica e espiritual aos filhos, o que trouxe muitos frutos em termos de diligência e atividade dos Estados Unidos.

Um livro fascinante foi escrito com o título “A Boston Puritana e a Filadélfia dos Quakers”. Nele, o autor compara o que aconteceu com a descendência dos Puritanos da cidade de Boston, e com a descendência dos Quakers na Filadélfia, e prova que os descendentes dos Puritanos exerceram uma influência muito maior até os dias de hoje. Conclusão: a influência intelectual, política e cultural na América tem vindo mais do lado Puritano do que do lado dos Quakers. Por falar nisso, alguém já fez um estudo que se tornou famoso sobre os descendentes do grande Puritano Jonathan Edwards. É impressionante observar a descendência de Jonathan Edwards em cada área da vida.

Em quinto lugar, este princípio regulador puritano influenciou grandemente na área da ciência, como é reconhecido pelos historiadores da ciência, como Butterfield e o professor Whitehead Huikos da Holanda. Falando deste último, referimo-nos ao seu livro “A religião e o surgimento da ciência moderna”. Neste livro ele diz algo que é reconhecido pelos demais historiadores da ciência, ou seja, que as raízes da ciência moderna estão no Movimento Puritano. Com isso não estamos querendo dizer que toda a ciência moderna no século XVII e XVIII é puritana, mas que uma porcentagem surpreendente do que foi feito em termos científicos está enraizada no movimento Puritano. Sabemos que a ciência, como era p raticada no século XVII e XVIII, não se iniciou nas universidades de Cambridge e Oxford. Na realidade, os grandes avanços científicos se iniciaram em outra direção; eles surgiram da Sociedade Real de Londres, da qual, durante algum tempo, Isaque Newton foi membro. Além de seu trabalho científico, Newton escreveu vários livros sobre profecias e comentários de livros da Bíblia.

Vários desses membros da Sociedade Real de Londres tinham também sido membros da grande Assembléia de Westminster na década de 1640, e alguns dos professores de matemática e geometria, que estavam vivos naquela época, também tinham participado desta grande Assembléia. A doutrina da glória de Deus na criação, que eles sustentavam, foi o que tornou possível à ciência moderna avançar de forma tremenda.

Um outro aspecto do legado puritano que chega aos nossos dias foi a ascensão da classe pobre. O Prof. Jordan escreveu um livro importante: “Filantropia na Inglaterra – 1480/1660”. Neste livro, ele mostra que os Puritanos fizeram mais do que qualquer outro grupo para esvaziar as favelas, diminuir o crime e acabar com a pobreza. Eles literalmente reestruturaram a economia de tal forma que os pobres podiam participar. Eles não eram socialistas, pois criam no direito de liberdade privada (livre iniciativa), mas acreditavam que a misericórdia de Deus devia ser demonstrada a todas as pessoas de forma prática.

Certo teólogo anglicano, Lancelot Andrews, que na verdade não era um Puritano, observou em 1588 que as Igrejas Calvinistas de refugiados em Londres foram capazes de “fazer tanto bem, que nenhum de seus pobres é visto nas ruas a pedir”, os pedintes praticamente acabaram.

Outra coisa a ser mencionada foi a reconstrução do governo em termos da Palavra de Deus. Se tivéssemos tempo, falaríamos de John Knox, Samuel Rutheford e outros. Eles desenvolveram a idéia de que todas as pessoas são iguais diante da Palavra de Deus, e que qualquer que viola os seus direitos é um tirano, e o povo tem o direito de derrubá-lo do governo. É muito conhecido o fato de que, durante a revolução americana, aproximadamente dois terços da população na colônia era calvinista, incluindo presbiterianos, batistas e congregacionais. Foi o legado calvinista nas colônias americanas que os capacitou a tomar uma posição e ganhar a liberdade dos E.E.U .U.

Acreditamos que à medida que aprendermos e observarmos mais do legado Puritano em termos da nossa época e da nossa cultura, teremos também mais liberdade, mais bênção e menos pobreza no nosso país.

(Publicado em O Presbiteriano Conservador na edição de Setembro/Outubro de 1995)

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