Carta a Um Jovem em Dúvida – Deus nos Protege?

Abaixo segue a transcrição de uma pergunta que me foi feita por um jovem há alguns meses atrás e a respectiva resposta em forma de carta.

“Se eu pedir proteção a minha família, Deus protege? se sim porque ele não protege os cristão que estão sendo decapitados pelos terroristas do estado islâmico?”

Olá caro amigo,

Parece haver um desentendimento de sua parte quanto à ideia de proteção de Deus. Veja comigo João 17: 11,15 ‘Não ficarei mais no mundo, mas eles ainda estão no mundo, e eu vou para ti. Pai santo, protege-os em teu nome, o nome que me deste, para que sejam um, assim como somos um. (…) Não rogo que os tires do mundo, mas que os protejas do Maligno.’

Nessa oração sacerdotal, Jesus está orando pelos discípulos pedindo que o Pai os proteja do mundo (vs 11), no vs 15, Jesus pede que os proteja do Maligno. A questão é: Estava Jesus se referindo a protegê-los de sofrer ou mesmo da perseguição? O apóstolo Tiago em Atos morreu ao fio da espada, Pedro (segundo a tradição) morreu numa cruz de cabeça para baixo, Paulo foi decapitado no período em que Nero era o imperador de Roma, mas todos estes mártires morreram sem negar a fé, sem negar que Cristo é o Cristo, sem negar a esperança de se encontrar com seu Salvador!

Quando Jesus pede ao Pai para nos proteger, ele se refere a proteção do mundo como o sistema de coisas que desejam abalar e desviar a nossa fé. ‘porque tudo que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mundo’ (1 Jo 2:16) Certamente que Deus nos dá livramentos físicos, livramentos de morte em alguns casos e devemos ser gratos a Deus por isso, mas não podemos esperar que somente porque estamos em Cristo que nada vai nos acontecer, pelo contrário, se de fato estamos em Cristo, a Bíblia diz que seremos perseguidos (‘Estas coisas v os tenho dito para que tenhais paz em mim. No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo.’ – Jo 16:33), que partilharemos dos sofrimentos de Cristo (‘Ora, se somos filhos, somos também herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo; se com ele sofremos, também com ele seremos glorificados.’ – Rm 8:17), mas em todo sofrimento, em toda aflição, meu caro, Deus nos garante que estará conosco, nossa alegria não será roubada porque estará escondida nEle, nossa fé não será abalada porque Ele é quem a sustenta!

Entendendo isso, você perceberá que os cristãos que foram decapitados foram sim protegidos por Deus. O corpo deles pode ter caído ao chão, mas suas almas não se perderam, Deus os guardou de abandonar a fé no momento que a sombria morte chegou pra eles. Portanto, ore para que Deus proteja sua família e te proteja do mundo e do maligno, assim quando vier a aflição, quando vier o momento de fazer como esses cristãos mortos, você possa dizer: ‘Porque para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós’ (Rm 8:18)

Em Cristo,

Por Diego de Andrade. afeicoesdoevangelho@gmail.com

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O Evangelho é Aqui e Agora

Por que muitos cristãos são inativos e infrutuosos? Pedro apresenta o diagnóstico em 2 Pe 1:9: Eles são cegos e conseguem ver apenas o que está perto, tendo esquecido que foram purificados de seus pecados do passado. Eles estão cegos para o poder e esperança do evangelho para hoje. O que isso significa?

As boas-novas do evangelho de Jesus Cristo são que ele é um evangelho “antes-agora-depois”. Primeiro, existe o “antes”, o passado. Quando eu recebo a Cristo pela fé, meus pecados são completamente perdoados, e Deus me considera justo diante dele. Existe o “depois”, o futuro, a promessa da eternidade com o Senhor, livre do pecado e de lutas. A igreja tem se saído bem na explicação das fases “antes e depois” do evangelho, mas tem tido a tendência de menosprezar ou entender mal os benefícios da obra de Cristo no “agora”. Que diferença o evangelho faz no aqui e agora? Como ele me ajuda na função de pai, marido, profissional e membro do corpo de Cristo? Como ele me auxilia a reagir às dificuldades e tomar decisões? Como ele me dá significado, propósito e identidade? Como ele motiva o serviço que presto a outros?

É no aqui e agora que muitos de nós experimentamos uma cegueira referente ao evangelho. Nossa visão é ofuscada pela tirania do urgente, pela sirene do sucesso, pela beleza sedutora das coisas físicas, por nossa inabilidade de admitir nossos problemas e pelos relacionamentos ocasionais dentro do corpo de Cristo que nós chamamos, erroneamente, de comunhão. Com frequência essa cegueira é incentivada pela pregação que deixa de levar o evangelho aos desafios específicos que as pessoas enfrentam. As pessoas precisam perceber que o evangelho pertence ao seu local de trabalho, sua cozinha, sua escola, seu quarto, seu quinta e seu carro. Precisam ver o modo que o evangelho faz uma relação entre o que eles estão fazendo e o que Deus está fazendo. Precisam entender que as histórias de suas vidas estão sendo vividas dentro da história maior de Deus, de tal forma que possam aprender a viver cada dia com uma mentalidade norteada pelo evangelho.

 

Trecho do livro de Timothy Lane e Paul David Tripp. Como as Pessoas Mudam. Editora Cultura Cristã. 2011.

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Martírio de Policarpo

(…) Finalmente o fizeram entrar (no estádio) e, quando souberam que Policarpo fora preso, policarpolevantou-se grande tumulto. Levado até o procônsul, este lhe perguntou se ele era Policarpo. Respondeu que sim. E o procônsul procurava fazê-lo renegar, dizendo: “Pensa na tua idade”, e tudo o mais que costumava dizer, como: “Jura pela fortuna de César!” (…) O chefe da polícia insistia: “Jura e eu te liberto. Amaldiçoa o Cristo!” Policarpo respondeu: “Eu o sirvo há oitenta e seis anos, e ele não me fez nenhum mal.  Como poderia blasfemar o meu rei que me salvou? “

Ele (o chefe de polícia) continuava a insistir dizendo: “Jura pela fortuna de César!” Policarpo respondeu: “Se tu pensas que vou jurar pela fortuna de César, como dizes, e finges ignorar quem sou, escuta claramente: eu sou cristão! Se queres aprender a doutrina do cristianismo, concede-me um dia e escuta” (…).

O procônsul disse: “Eu tenho feras, e te entregarei a elas, se não mudares de ideia”. Ele disse: “Pode chamá-las. Para nós é impossível mudar de ideia, a fim de passar do melhor para o pior; mas é bom mudar para passar do mal à justiça.” O procônsul insistiu: “Já que desprezas as feras, eu te farei queimar no fogo, se não mudares de ideia”. Policarpo respondeu-lhe: “Tu me ameaças com um fogo que queima por um momento, e pouco depois se apaga, porque ignoras o fogo do julgamento futuro e do suplício eterno, reservado aos ímpios. Mas por que tardar? Vai e faze o que queres”.

O procônsul ficou estupefato e mandou seu arauto ao meio do estádio para anunciar três vezes: “Policarpo se declarou cristão!” A essas palavras do arauto, toda a multidão de pagãos e judeus  moradores de Esmirna, com furor incontido, começou a gritar: “Eis o mestre da Ásia, o pai dos cristãos, o destruidor de nossos deuses! É ele que ensina muita gente a não sacrificar e adorar”. (…) Unânimes se puseram a gritar que Policarpo fosse queimado vivo.

(…) Quando a pira ficou pronta, o próprio Policarpo se despiu, desamarrou o cinto, e ele mesmo tirou o calçado. (…) Como queriam pregá-lo, ele disse: “Deixai-me assim. Aquele que me concede força para suportar o fogo, dar-me-á força para permanecer imóvel na fogueira, também sem a proteção de vossos pregos.” Então não o pregaram, mas o amarraram. Erguendo os olhos ao céu, disse: Senhor, Deus todo-poderoso, Pai de teu Filho amado e bendito, Jesus Cristo, pelo qual recebemos o conhecimento do teu nome, Deus dos anjos, dos poderes, e toda criação e de toda a geração de justos que vivem na tua presença! Eu te bendigo por me teres julgado digno deste dia e desta hora, de tomar parte entre os mártires, e do cálice de teu Cristo, para a ressurreição da vida eterna da alma e do corpo, na incorruptibilidade do Espírito Santo. (…) Por isso e por todas as outras coisas, eu te louvo e te bendigo, te glorifico pelo eterno e celestial sacerdote Jesus Cristo, teu Filho amado, pelo qual seja dada glória a ti, com ele e o Espírito, agora e pelos séculos futuros. Amém”.

Foi sugerido a Nicetas, pai de Herodes e irmão de Alce, que procurasse o magistrado, a fim de que ele não nos entregasse o corpo. Foi dito: “Não aconteça que eles (os cristãos), abandonando o crucificado, passem a cultuar esse aí”. Dizia essas coisas por sugestão insistente dos judeus que nos tinham vigiado quando queríamos retirar o corpo do fogo. Ignoravam eles que não poderíamos jamais abandonar Cristo, que sofreu pela salvação de todos aqueles que são salvos no mundo, como inocente em favor dos pecadores, nem prestarmos culto a outro. Nós o adoramos porque é o Filho de Deus. Quanto aos mártires, nós os amamos justamente como discípulos e imitadores do Senhor, por causa da incomparável devoção que tinham para com seu rei e mestre. Pudéssemos nós também ser seus companheiros e condiscípulos!

Martírio de Policarpo de Esmirna. Trecho da Carta de Esmirna endereçada a Igreja de Filomélio, segundo a tradição. Retirado do livro Padres Apostólicos. Editora Paulus.

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